
Na teleconferência de resultados da SpaceX, na terça, 20 de outubro, Elon Musk disse que a SpaceX e a Tesla formaram comitês especiais de conselheiros independentes para estudar uma fusão, a pedido de acionistas. Musk comanda as duas empresas e disse que fica fora das conversas por conflito de interesse. Ainda não há termos. Na quinta, 22 de outubro, a Reuters informou que a declaração pública de Musk incomodou quem trabalha no negócio e pode atrasar as conversas em algumas semanas.
Em resumo
- O anúncio: comitês nas duas empresas, criados a pedido de acionistas e sem termos acordados. Musk disse que a fusão “seria uma boa ideia”, mas que não é certa.
- Tamanho: a SpaceX vale cerca de US$ 2 trilhões e a Tesla cerca de US$ 1,5 trilhão. A Reuters fala num negócio de US$ 3,5 trilhões, o maior da história.
- Voto: na Tesla, a operação precisa de 50% de todas as ações, contando quem não vota. Na SpaceX, Musk controla mais de 80% dos votos.
- Ruído: segundo a Reuters, uma pessoa a par das conversas chamou a declaração de “bagunça”. As ações das duas empresas caíram na manhã de quinta.
- Calendário: a assembleia anual da Tesla está marcada para 3 de dezembro, sem fusão na pauta.
O que Musk disse sobre a fusão?
A frase central veio na teleconferência: “Como sou parte conflitada, não posso participar das discussões dos comitês especiais”, segundo o TechCrunch. Musk descreveu o processo como “uma estranha dança kabuki”, em que dois grupos conversam e ele fica de fora. Ele disse que os comitês ainda não chegaram a acordo sobre os termos de nenhuma operação e que tratar a fusão como certa “seria exagero”.
Musk defendeu a ideia. “Acho que seria uma boa ideia? Sim. Mas, no fim, os acionistas precisam apoiar”, disse, segundo a Reuters reproduzida pelo The Next Web. Ele citou como pontos em comum o software de IA, a robótica, o Starmind, projeto da SpaceX de data center de IA em órbita, e a Terafab, fábrica de chips que as duas empresas constroem juntas no Texas. Também admitiu o desconforto: “Sinto que estou sapateando num campo minado”, segundo o Yahoo Finance.
No dia seguinte, na teleconferência da própria Tesla, Musk não acrescentou nada. “Acho que disse tudo o que devia ser dito ontem”, afirmou, segundo o The Next Web.
Quem decide e qual é o obstáculo?
Musk não nomeou os integrantes dos comitês. O TechCrunch listou os conselheiros independentes de cada empresa. Na Tesla são sete, segundo o proxy de 19 de outubro: Robyn Denholm, que preside o conselho, Ira Ehrenpreis, JB Straubel, Joe Gebbia, Jack Hartung, James Murdoch e Kathleen Wilson-Thompson. Na SpaceX são seis: Ehrenpreis, Randy Glein, Donald Harrison, Steve Jurvetson, Luke Nosek e Roelof Botha. Ira Ehrenpreis aparece nas duas listas.
O obstáculo maior está na Tesla. A fusão precisa do voto de 50% de todas as ações, incluindo as que não votam, o que Musk chamou de “barreira bem alta”. Musk tem quase um quinto da Tesla e pouco menos da metade da SpaceX, segundo a Reuters. Com ações de voto especial, ele controla cerca de 82% dos votos da SpaceX, segundo o Yahoo Finance. Lá, o voto dele praticamente decide.
Por que a fala de Musk complicou as conversas?
A Reuters ouviu três fontes. As conversas estão em fase inicial, as duas empresas contrataram assessores e a SpaceX procurou a Tesla nas últimas semanas. Estão em estudo a compra da Tesla pela SpaceX e a fusão sob uma nova holding, com a hipótese de pagamento só em ações. Os assessores falam com os advogados de Musk para mantê-lo fora das negociações. Tesla, SpaceX e Musk não comentaram.
Uma pessoa com conhecimento direto disse à Reuters que a declaração pública criou uma “bagunça” e pode atrair questionamento de acionistas sobre a defesa dos interesses de quem tem ação da Tesla. O precedente é a compra da SolarCity pela Tesla, em 2016. Musk tinha cerca de 22% das duas empresas. A Suprema Corte de Delaware apontou a falta de comitê independente e o apoio público de Musk à operação como sinais de negociação injusta, segundo a Reuters. O negócio acabou mantido, mas conselheiros da Tesla pagaram US$ 60 milhões em acordo. Hoje a Tesla está registrada no Texas. “A questão do Texas é uma incógnita”, disse à Reuters Eric Talley, professor de direito da Universidade Columbia.
Como o mercado e os analistas reagiram?
Na quinta, 22 de outubro, a Tesla caía cerca de 5% e a SpaceX cerca de 3% antes da abertura, segundo a Stocktwits. Pela manhã, a SpaceX recuava 6%, para US$ 150,23, segundo o Yahoo Finance, que atribuiu a queda a uma venda geral de ações de tecnologia e à promessa de mais gasto com computação. Na véspera, a Tesla tinha divulgado lucro de US$ 787 milhões no terceiro trimestre, queda de 43% em um ano, segundo a Euronews.
Para o Barclays, a fusão “virou cada vez mais a expectativa de consenso”. O analista Dan Levy espera a SpaceX como compradora, com pagamento em ações. Aos preços atuais, cada ação da Tesla valeria cerca de 0,7 ação da SpaceX, antes de prêmio. Musk ficaria com cerca de 37% da empresa combinada e 56% dos votos, segundo o Yahoo Finance. Dan Ives, da Yorkville Ives, vê de 80% a 90% de chance de fusão até o fim de 2027, segundo o Benzinga. A Bloomberg calculou que o negócio pode somar mais de US$ 110 bilhões à fortuna de Musk se contar como mudança de controle nos planos de remuneração da Tesla, segundo o The Next Web.
Como chegamos até aqui?
As duas empresas já estão ligadas por dinheiro e projetos. Em janeiro de 2026, a Tesla aceitou investir cerca de US$ 2 bilhões na xAI, segundo o 24/7 Wall St. A xAI virou subsidiária da SpaceX em fevereiro. O proxy da Tesla registra a compra de cerca de US$ 2 bilhões em ações Classe A da SpaceX em 12 de março, segundo o Tesla North. A Tesla faturou US$ 143,3 milhões com a SpaceX em 2025, quase tudo em venda de veículos. O novo Roadster usa propulsores da SpaceX e a Terafab é projeto conjunto, com participação da Intel, segundo a Reuters.
Em setembro, Musk chamou de “ótima pergunta” a dúvida sobre por que as empresas continuavam separadas, segundo o The Next Web. A Marcio.AI vem registrando a consolidação dos negócios de IA de Musk dentro da SpaceX, como a compra da Cursor por US$ 60 bilhões. Os resultados da SpaceX que antecederam o anúncio estão em outro post do Watcher.
O que muda para o investidor brasileiro?
As duas empresas têm BDR na B3. O da SpaceX, SPCX34, estreou em 12 de junho, no dia do IPO, na proporção de 15 recibos por ação. Ele é um BDR não patrocinado, com o Banco B3 como depositário, segundo o Eu Quero Investir. O da Tesla é o TSLA34, segundo o Bora Investir, da B3.
Numa fusão com troca de ações, quem tem TSLA34 fica exposto à relação de troca que os comitês negociarem. A conta do Barclays, de 0,7 ação da SpaceX por ação da Tesla, é só uma referência de preço e não inclui prêmio. O que acontece com cada BDR depende dos avisos do emissor e da B3, que não existem porque ainda não há negócio. Para conselhos de empresas brasileiras com controlador comum, o caso mostra o peso de um comitê independente blindado do controlador desde o primeiro dia.
O que observar nas próximas semanas
A tese da Marcio.AI: a fusão tende a sair, mas não na assembleia de 3 de dezembro. O Barclays avaliou que um anúncio depois do fim de outubro ou do começo de novembro dificulta a votação nessa assembleia. Com o atraso de semanas relatado pela Reuters, esse prazo ficou apertado. A Bloomberg fala em pressão para anunciar até o primeiro semestre de 2027, segundo o The Next Web. Quem ganha com a demora é o acionista minoritário da Tesla, que terá mais tempo e mais informação para avaliar a troca.
Sinais para conferir até dezembro: material suplementar do proxy da Tesla antes de 3 de dezembro, nomes dos integrantes dos comitês e dos assessores, um primeiro registro na SEC com estrutura e relação de troca, e eventuais ações de acionistas questionando a independência do processo.
Fontes
- TechCrunch, SpaceX and Tesla boards form special committees to review merger, 20/10/2026
- Investing.com, Transcrição da teleconferência de resultados da SpaceX do 3º trimestre de 2026, 20/10/2026
- Reuters via MarketScreener, Musk’s public endorsement of SpaceX-Tesla deal may throw a wrench in talks, 22/10/2026
- The Next Web, Musk’s backing for a SpaceX-Tesla merger rattled insiders, Reuters reports, 22/10/2026
- Yahoo Finance, Musk backs SpaceX-Tesla merger idea as both boards form special committees, 21/10/2026
- 24/7 Wall St., Tesla and SpaceX Just Formed Special Committees to Weigh a Merger, 21/10/2026
- Benzinga, SpaceX Bulls Get Louder After Q3 Earnings Print, 21/10/2026
- Tesla North, Tesla Sets Its 2026 Shareholder Meeting for December 3, and There’s No Merger Vote on the Ballot, 19/10/2026
- Yahoo Finance (Euronews), Tesla’s profit drops as it explores a possible merger with Musk’s other public company, SpaceX, 22/10/2026
- Yahoo Finance (Stocktwits), TSLA, SPCX Slide Premarket: Musk’s Merger Talk Reportedly Creates ‘Mess’, 22/10/2026
- Yahoo Finance, SpaceX and AST SpaceMobile Sink 6%, Rocket Lab Falls 5% as Tech Selloff Hits High-Flying Space Stocks, 22/10/2026
- Bora Investir (B3), BDR da SpaceX chega à B3 no mesmo dia do IPO, 11/06/2026
- Eu Quero Investir, BDR da SpaceX (SPCX34) no segundo pregão na B3, 15/06/2026
Rating Marcio.AI: 4/5 (Global, Muito relevante, No centro do hype). Seção TechBiz do Watcher.
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Como este texto foi produzido
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