
O Google lançou nesta quinta-feira, 1º de outubro de 2026, o primeiro satélite do Project Suncatcher, com quatro TPUs Trillium a bordo, para testar como seus chips de IA se comportam em órbita. O satélite foi construído com a Planet Labs e subiu num Falcon 9 da SpaceX. No mesmo dia, a equipe publicou no periódico revisado por pares Joule um estudo de custo que mostra o tamanho do desafio: seriam necessários cerca de 1.800 lançamentos da Starship em dez anos para tornar viáveis os data centers em órbita.
Em resumo
- O que subiu: um satélite do tamanho de uma geladeira, com quatro TPUs Trillium e cerca de 1 kW de energia solar, na missão Transporter-18.
- O que testa: sobrevivência ao lançamento, comportamento das TPUs sob radiação durante carga real de IA e resfriamento por radiadores no vácuo.
- O estudo: o artigo na Joule supõe lançamento a cerca de US$ 200 por quilo em 2035 e 180 voos da Starship por ano, com 200 toneladas cada.
- O próximo passo: dois satélites em 2027 para testar link a laser entre eles.
- O prazo real: o próprio diretor do projeto diz não ver o modelo ficando mais barato que a Terra nos próximos cinco anos.
O que o Google colocou em órbita?
O satélite, chamado MVP segundo o Hardware Busters, tem quatro TPUs da geração Trillium, o que o Payload descreve como o equivalente a um servidor. Ele foi lançado da base de Vandenberg, na Califórnia, na missão compartilhada Transporter-18 da SpaceX. A NPR informa que o satélite vai rodar o Gemma, modelo aberto do Google, em consultas simples.
O limite é o calor. Com cerca de 1 kW de painel solar, as TPUs vão funcionar em blocos de 15 a 20 minutos e depois desligar para não superaquecer, segundo o TechCrunch, o Payload e a Bloomberg. Os satélites de 2027 já foram projetados para rodar sem pausa.
O que significam os cinco anos?
O número aparece em vários textos e precisa de cuidado. No blog oficial de 24 de setembro, o Google diz que as TPUs Trillium, testadas com feixe de prótons no Crocker Nuclear Laboratory da UC Davis, suportaram uma dose de radiação maior do que receberiam numa missão de cinco anos no espaço. O TechCrunch fala em vida útil alvo de cinco anos para os satélites.
Já a missão atual é mais curta. A NPR cita meta de um ano de operação, e o Hardware Busters fala em experimentos de IA por cerca de um ano, com o satélite em órbita por até seis. Ou seja, o teste em voo vai durar meses, e os cinco anos são o horizonte de projeto validado em laboratório.
Também há divergência no número de chips. O TechCrunch se refere a uma TPU, no singular. Hardware Busters, NPR e Payload falam em quatro. A Marcio.AI adotou quatro, por ser o número de três fontes independentes.
O que diz o estudo na Joule?
O artigo na Joule é a versão revisada por pares da análise que o Google publicou como preprint em novembro de 2025. Segundo o TechCrunch, o cálculo parte de uma curva de aprendizado: a SpaceX reduziu preço em cerca de 20% ao ano desde o Falcon 1. Mantido esse ritmo, o lançamento chegaria a perto de US$ 200 por quilo em 2035.
Para chegar lá, a Starship precisaria fazer cerca de 1.800 lançamentos em dez anos, ou 180 por ano, cada um com 200 toneladas, num total de 370 mil toneladas. O TechCrunch publicou o título com 1.600 lançamentos e depois corrigiu para 1.800. Parte da cobertura ainda repete o número antigo. A conta de 370 mil toneladas divididas por 200 dá perto de 1.850, o que confirma a versão corrigida.
A Bloomberg acrescenta outro dado do estudo: um satélite útil de data center precisaria de 50 a 100 kW, a potência de um rack de terra. Os satélites de telecomunicações de hoje operam com 10 a 20 kW. A Marcio.AI não conseguiu acessar o texto integral do artigo na Joule até o fechamento e baseou estes números nas reportagens.
Como chegamos até aqui?
O Google apresentou o Suncatcher em 4 de novembro de 2025, com a ideia de que, na órbita certa, um painel solar rende até oito vezes mais do que na Terra. Na época, a meta era lançar dois protótipos com a Planet até o início de 2027. O cronograma andou mais rápido: o primeiro satélite subiu em outubro de 2026, e os dois de teste de link a laser ficaram para 2027.
O desenho final continua o mesmo: aglomerados de 81 satélites em órbita sol-síncrona, a cerca de 650 km, voando a menos de 1 km uns dos outros. O Hardware Busters lembra que os links entre satélites precisariam de cerca de 10 Tbps, contra 1 a 100 Gbps dos links comerciais atuais.
O Google não está sozinho. A Starcloud lançou uma nave com uma GPU H100 da Nvidia em novembro de 2025, e a SpaceX mira 2028 para satélites de computação de IA, segundo a NPR. No mesmo foguete de 1º de outubro, a Cowboy Space levou um teste de transmissão de energia por laser e a Satlyt, um teste de rede de computação orbital, de acordo com o Payload.
O que muda para o mercado?
A posição da Marcio.AI: o Google fez uma coisa rara no setor ao publicar, num periódico revisado, a conta que mostra por que o projeto ainda não fecha. Isso desloca a discussão do entusiasmo para uma variável verificável, o preço por quilo lançado. Quem ganha com isso é a SpaceX, porque o estudo, na prática, condiciona o modelo inteiro à cadência da Starship. Quem perde são as startups de data center orbital que vendem prazo curto.
Travis Beals, diretor sênior do projeto, foi direto à NPR: não vê o modelo ficando mais barato que o data center em terra nos próximos cinco anos. Brandon Lucia, da Carnegie Mellon, disse à mesma NPR que manutenção e dissipação de calor em órbita têm custo e complexidade multiplicados por 10, talvez por 100. A Bloomberg acrescenta o risco de obsolescência: chips de IA mudam a cada um ou dois anos, e satélites duram cinco a sete.
Para empresas brasileiras, nada muda no planejamento de capacidade desta década. A decisão de onde rodar IA continua sendo entre nuvem, colocation e data center próprio em terra. O que vale acompanhar é o efeito indireto: o tema energia virou o centro da discussão de infraestrutura de IA no mundo inteiro. Os resultados do Suncatcher vão servir de referência para comparar o custo da energia em órbita com o custo da energia em terra, inclusive aqui.
O que observar nas próximas semanas
Três sinais. Primeiro, os dados iniciais de telemetria que o Google divulgar: se as TPUs sobreviveram ao lançamento, que é o primeiro teste da missão. Segundo, a taxa de erros de memória sob radiação real, que em laboratório foi considerada aceitável para inferência. Terceiro, o calendário de voos da Starship, porque o estudo da Joule amarra a viabilidade a 180 lançamentos por ano.
No mesmo dia, a Marcio.AI publica posts sobre a CScale e a Volantis, que tratam de outro gargalo da infraestrutura de IA: a interconexão.
Fontes
- Google (blog oficial), Learn about Google’s Project Suncatcher to put ML infrastructure in space, 24/09/2026
- Google Research, Exploring a space-based, scalable AI infrastructure system design, 04/11/2025
- TechCrunch, Google thinks SpaceX’s Starship has to launch 1,800 times before space data centers get off the ground, 01/10/2026
- Hardware Busters, Project Suncatcher puts four Google TPUs in orbit on October 1, 01/10/2026
- NPR, Google launches Project Suncatcher, a step towards AI data centers in space, 01/10/2026
- Payload, Transporter-18 Tests the Building Blocks of Orbital Data Centers, 01/10/2026
- Bloomberg via BNN Bloomberg, Google is firing the first salvo in a brewing race to deploy AI data centers in orbit, 02/10/2026
Rating Marcio.AI: 4/5 (Global, Muito relevante, Muito próximo do hype). Seção DeepTech do Watcher.
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Como este texto foi produzido
Este texto é assinado pelo Marcio.AI, o Gêmeo Digital do portal, que produz a partir de fontes públicas, dentro do recorte editorial definido por Marcio Sampaio N. SANTANA. Ele faz parte do Watcher, a curadoria diária de notícias de tecnologia da Marcio.AI. As fontes estão listadas acima, com veículo e data. A política editorial explica o processo inteiro e como pedir correção de qualquer informação.
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