
Uma investigação do Financial Times publicada em 18 de outubro de 2026 conta pelo menos 47 grandes projetos de data center nos EUA atrasados, retirados ou barrados neste ano, com dados da RegLayer, empresa de dados regulatórios que chama a conta de conservadora. Analistas da Bernstein estimam que só cerca de 35% do pipeline planejado no país é crível. Segundo o jornal, mais de mil comunidades tentaram moratórias ou outras restrições à infraestrutura de IA em 2026. O pano de fundo é um investimento estimado entre US$ 9 trilhões e US$ 10 trilhões até 2032.
Em resumo
- Projetos travados: pelo menos 47 grandes data centers atrasados, retirados ou barrados nos EUA em 2026, segundo a RegLayer, citada pelo FT.
- Pipeline: a Bernstein considera crível só cerca de 35% do que está anunciado. Os outros 65% seguem anunciados sem passar no filtro dos analistas.
- Resistência: mais de mil comunidades tentaram moratórias ou restrições. Alguns reguladores só aprovam conexão à rede se o projeto trouxer a própria energia.
- Conta total: Stijn Van Nieuwerburgh, de Columbia, estima cerca de US$ 9 trilhões até 2032 na versão do estudo de outubro, e US$ 10,3 trilhões na versão de setembro.
- Leitura: contrato de capacidade virou promessa condicionada a energia, licença e financiamento, e o mercado passou a separar projeto de anúncio.
O que o Financial Times levantou?
A contagem de 47 projetos vem da RegLayer, que acompanha processos regulatórios e diz que o número é conservador. A estimativa de 35% é de analistas da Bernstein. O Profile News lembra que os 35% medem credibilidade pelos critérios atuais dos analistas, e que o restante não foi necessariamente cancelado. As causas citadas pela Crypto Briefing são problemas de conexão à rede, licenças, falta de equipamentos e oposição local.
O FT também apurou que mais de mil comunidades tentaram moratórias ou outras restrições à infraestrutura de IA neste ano. Alguns reguladores de energia passaram a negar conexão à rede a projetos que não tragam a própria geração, segundo o resumo do Seeking Alpha. Um executivo do setor resumiu ao jornal que hoje está muito mais difícil financiar um data center, segundo o AI-RTZ, boletim de Michael Parekh.
Que empresas aparecem na reportagem?
A SB Energy, controlada pelo SoftBank, ainda não concluiu nenhum data center. Precisa de US$ 174 bilhões para cumprir contratos que somam US$ 430 bilhões em receita futura, a maior parte da OpenAI, segundo o FT. O IPO da empresa, a uma avaliação de US$ 50 bilhões, está suspenso.
A Cipher aceitou cobrir os primeiros US$ 359 milhões de estouro de custo num projeto no Texas para a Fluidstack, parceira da Anthropic, em troca de mais prazo de entrega. O contrato renegociado exigiu cerca de US$ 750 milhões a mais em capital próprio. A Nebius estima que a expansão planejada de 5 GW custará cerca de US$ 250 bilhões, e só um quinto estava financiado em setembro, segundo o Seeking Alpha.
A Oracle emitiu em setembro aviso de força maior por atraso na obtenção de energia para o projeto Jupiter, no Novo México, desenvolvido com a STACK Infrastructure, apoiada pela Blue Owl, para atender a OpenAI, segundo Profile News e Coinpaper, que citam a Reuters. A Blue Owl manteve o compromisso com o projeto.
Quanto custa a construção prevista?
O número de US$ 10 trilhões que aparece no título do FT vem do economista Stijn Van Nieuwerburgh, da Columbia Business School. As fontes divergem porque o estudo tem duas versões. Na versão apresentada à conferência da Brookings em 24 e 25 de setembro, a conta era de cerca de US$ 10,3 trilhões entre 2025 e 2032, para 183 GW novos, ou 3,63% do PIB americano por ano. Foi esse número que a Reuters noticiou em 24 de setembro. Na versão publicada pelo NBER em outubro, a conta caiu para cerca de US$ 9 trilhões, para 188 GW, ou 3,2% do PIB por ano. Os dois documentos estimam o custo de um campus de 1 GW em cerca de US$ 41 bilhões.
O estudo também calcula quanto de receita anual a infraestrutura precisaria gerar quando madura: cerca de US$ 3,55 trilhões no cenário central, numa faixa de US$ 2,13 trilhões a US$ 6,55 trilhões, segundo o AI Insider. Se os chips durarem três anos em vez de seis, a exigência sobe para cerca de US$ 5,7 trilhões. O autor ressalta que se trata de uma exigência de receita calculada pelo modelo. O estudo não mede a demanda futura.
O resumo do NBER descreve como o dinheiro está chegando. O investimento das grandes empresas de nuvem cresce mais rápido que o caixa delas, e o financiamento migra para arrendamentos, joint ventures, dívida de projeto, crédito privado, securitização e empresas de propósito específico. Segundo o autor, esses arranjos ampliam a capacidade de captar, mas elevam a alavancagem, escondem obrigações contingentes e expõem o investidor a concentração de inquilino, obsolescência, atraso de obra e valor residual incerto. Um exemplo do estudo é o Hyperion, da Meta: cerca de US$ 30 bilhões para 2 GW, com 80% vendidos à Blue Owl e cerca de US$ 27 bilhões em dívida externa, perto de 90% do valor dos ativos.
Como chegamos até aqui?
Em 24 de setembro, Van Nieuwerburgh apresentou a primeira versão do estudo e comparou a falta de transparência dos veículos de propósito específico a um traço da crise das hipotecas de 2008, sem prever crise iminente. Ainda em setembro, a Oracle emitiu o aviso de força maior no Jupiter. Em 5 de outubro saiu a versão do NBER. Em 12 de outubro, a FERC, reguladora federal de energia, aprovou um registro de demanda de data centers na PJM, operadora que atende cerca de 67 milhões de pessoas, e rejeitou proposta de desligar data centers em picos de consumo, segundo o Profile News. Em 14 de outubro, o Gartner calculou mais de US$ 3,5 trilhões em infraestrutura de IA sob risco de baixa contábil. O levantamento do FT, quatro dias depois, levou a discussão do balanço para o canteiro de obras.
O que isso significa para o Brasil?
O Brasil vive versão menor da mesma conta. Segundo a JLL, em estudo que a Marcio.AI cobriu no post sobre a corrida global por data centers, o país tinha 706 MW em operação no primeiro semestre de 2026 e um pipeline mapeado de 4.621 MW, mais de seis vezes a capacidade atual. A própria JLL lista energia, cadeia de suprimentos e atraso de obra como riscos ao cronograma.
O filtro da Bernstein serve para ler esse pipeline. Por projeto, três perguntas: a conexão de energia está contratada, a licença saiu e o financiamento fechou? O Redata, aprovado pelo Senado em setembro, condiciona o incentivo fiscal a energia renovável e eficiência no uso de água. A regulamentação pode funcionar como um primeiro filtro de credibilidade para os projetos brasileiros.
O que observar nas próximas semanas
A tese da Marcio.AI: até o fim de 2026, a contagem de projetos travados nos EUA passa de 47 e pelo menos mais um grande desenvolvedor adia IPO ou captação. Ganham os operadores com energia já conectada e cliente de grau de investimento. Perdem os desenvolvedores que vendem contrato futuro sem energia garantida. Sinais para conferir: a próxima atualização da RegLayer, o destino do IPO suspenso da SB Energy, o funcionamento do registro de demanda da PJM aprovado pela FERC e a retomada, ou não, do projeto Jupiter da Oracle.
Fontes
- Seeking Alpha via TradingView, Funding strains, construction delays test America’s $10T AI buildout: FT (resumo da reportagem do FT de 18/10/2026), 18/10/2026
- Crypto Briefing, US data center projects face significant delays, only 35% deemed credible: Bernstein, 18/10/2026
- Profile News, AI Data Center Projects Face Delays as America’s $10 Trillion Buildout Comes Under Pressure, 18/10/2026
- Coinpaper, America’s $10 Trillion AI Boom: What Happens When Data Centers Never Get Built?, 18/10/2026
- AI-RTZ (Michael Parekh), The $10 Trillion AI Build Meets Its Bankers, 19/10/2026
- NBER, Financing the AI Buildout, working paper w35865 (Stijn Van Nieuwerburgh), 05/10/2026
- Brookings, Financing the AI Buildout, versão da conferência BPEA de 24 e 25/09/2026, 24/09/2026
- AI Insider, Economist Estimates AI Buildout Would Need $3.55 Trillion in Annual Revenue, 09/10/2026
- Superpower Daily (reportagem da Reuters), Columbia Professor Estimates US AI Buildout at Over $10 Trillion, Warns of Financing Risk, 24/09/2026
Rating Marcio.AI: 5/5 (Global, Totalmente relevante, No centro do hype). Seção TechBiz do Watcher.
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Como este texto foi produzido
Este texto é assinado pelo Marcio.AI, o Gêmeo Digital do portal, que produz a partir de fontes públicas, dentro do recorte editorial definido por Marcio Sampaio N. SANTANA. Ele faz parte do Watcher, a curadoria diária de notícias de tecnologia da Marcio.AI. As fontes estão listadas acima, com veículo e data. A política editorial explica o processo inteiro e como pedir correção de qualquer informação.
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