
A Quantinuum anunciou em 19 de outubro de 2026 que o computador Helios chegou a 99,9995% de fidelidade lógica, o equivalente a cerca de cinco erros por milhão de operações. O resultado usa um código de cores para proteger a informação. A cada aumento da distância do código, os erros que sobravam caíram cerca de 12 vezes. O artigo entrou no arXiv em 16 de outubro e ainda não passou por revisão de pares. A empresa diz que o número já está dentro da faixa do Apollo, o computador tolerante a falhas que promete para 2029.
Em resumo
- Resultado: um qubit lógico guardado com 5 erros por milhão de rodadas de correção, no código de distância 7.
- Escala: o erro caiu cerca de 12 vezes a cada degrau de distância (3, 5 e 7). É o sinal de que crescer o código compensa.
- Comparação: a empresa fala em 10 vezes menos erro que o próprio recorde de setembro e 100 vezes menos que o melhor resultado publicado pelo Google em supercondutores.
- Limites: o recorde vale para memória. Portas lógicas ficaram em 7 erros por 100 mil, a decodificação foi feita depois do experimento e não houve estados mágicos.
- Leitura: íons presos saem na frente na conta de qubits por qubit lógico. A velocidade de cada rodada segue sendo o ponto fraco.
O que a Quantinuum mediu?
O experimento guardou um qubit lógico no Helios, máquina de 98 qubits de íons presos lançada em novembro de 2025. A equipe usou códigos de cores triangulares de distância 3, 5 e 7. Cada teste teve 20 rodadas de extração de síndrome, o ciclo em que a máquina mede sinais de erro sem destruir a informação guardada.
O artigo traz a taxa de erro por rodada em cada distância: 5,5 por 10 mil na distância 3, 3,8 por 100 mil na distância 5 e 5 por milhão na distância 7. O fator de supressão ajustado, chamado lambda, ficou em 12, com margem de 10 a 15. A PostQuantum fez a conta degrau a degrau: cerca de 14 vezes da distância 3 para a 5 e 7,6 vezes da 5 para a 7. O último degrau se apoia em apenas três falhas em 29 mil execuções, e por isso a margem de erro da distância 7 é larga.
O ganho dependeu de controlar o vazamento, quando o íon de bário sai dos dois níveis de energia que formam o qubit. A Quantinuum criou um bombeio no meio do circuito que reduziu 6,5 vezes a população vazada. Segundo o artigo, isso cortou o erro lógico 4 vezes na distância 3 e 8 vezes na distância 5. A PostQuantum destaca uma simulação do próprio artigo: sem tratar o vazamento, o erro ficaria em torno de 5 por mil em todas as distâncias, e aumentar o código não ajudaria.
Quantos qubits o código usa?
As fontes trazem números diferentes, e o artigo explica a diferença. O comunicado fala em até 37 qubits físicos por qubit lógico. Esse número conta só os qubits de dados do código de distância 7. Somando os qubits de medição, o artigo lista 13, 37 e 73 qubits para as distâncias 3, 5 e 7. A The Qubit Report, citando o New Scientist, fala em 7, 19 e 37, que são os qubits de dados de cada distância. A PostQuantum observa que a Quantinuum usa só qubits de dados nos totais, o que dobra o número absoluto quando se conta tudo e mantém a proporção entre os códigos.
O recorde anterior, de setembro, usou o código Helix, com 20 qubits físicos para 2 qubits lógicos, ou 10 por qubit lógico, segundo a Quantum Brief. O Helix chegou a 4,6 erros por 100 mil rodadas. O código de cores gasta mais qubits e erra menos. Pela conta da PostQuantum, a melhora real é de 9,2 vezes, perto dos 10 vezes do anúncio.
A comparação de 100 vezes com o Google também depende da régua. O Willow, chip supercondutor do Google, chegou em 2024 a 0,143% de erro por ciclo num código de superfície de distância 7. Contra esse número, os 5 por milhão do Helios são 286 vezes menores. Contra o resultado de 2025 do Google, com aprendizado por reforço, a diferença cai para cerca de 154 vezes. A PostQuantum chama os 100 vezes de conservadores por rodada.
O que o recorde ainda não cobre?
O primeiro limite é a velocidade. A Quantum Brief e a PostQuantum lembram que a comparação é por rodada, e uma rodada no Helios exige mover íons entre zonas da armadilha. A PostQuantum estima a rodada do Helios em cerca de 200 milissegundos, a partir de linhas de referência do artigo, que não traz o tempo no texto. O ciclo do Willow é de 1,1 microssegundo. Por essa estimativa, o Helios é cerca de 200 mil vezes mais lento por rodada.
O segundo limite são as portas lógicas. Num teste de portas Clifford de dois qubits, o erro foi de 7 por 10 mil na distância 3 e 7 por 100 mil na distância 5, com lambda de 9. A distância 7 ficou de fora porque dois blocos de 73 qubits não cabem numa máquina de 98. Para uma máquina capaz de um milhão de operações sem erro, o erro da memória ainda está 5 vezes acima do necessário e o das portas, 70 vezes, pela conta da PostQuantum.
O terceiro é a decodificação. Todos os números saíram de decodificação feita depois do experimento, com o Tesseract, que os autores descrevem como quase ótimo e lento demais para tempo real. Dois decodificadores de redes neurais, treinados só com dados de emulador, levaram de 0,22 a 0,52 milissegundo por rodada numa GPU H100. A latência ponta a ponta pelo sistema de controle não foi medida. A GPU ao lado da máquina quântica aparece de novo depois que a Marcio.AI mostrou a Riverlane recalibrando o decodificador em 2,8 segundos numa GPU da Nvidia.
Por fim, não houve estados mágicos, o recurso que leva a máquina além das operações Clifford, que um computador comum consegue simular. Os autores listam como próximos passos preparar estados mágicos em código de cores abaixo do limiar e rodar um circuito completo com decodificação em tempo real. O Google mostrou dias antes como reduzir em 40 vezes o erro dos estados mágicos no Willow.
O que dizem fora da Quantinuum?
Robin Blume-Kohout, codiretor do Laboratório de Desempenho Quântico do Sandia National Laboratories, não participou do estudo. Ele disse que o qubit lógico é “quase 100 vezes melhor que os qubits físicos que o compõem” e que uma versão maior do sistema pode chegar à confiabilidade de uma computação útil com menos de um milhão de qubits físicos. Para ele, o resultado ajuda a “retirar um dos riscos técnicos centrais da área”.
A The Qubit Report avaliou que o fator de 12 por degrau indica queda exponencial do erro, o que dá ao resultado peso de tendência. A PostQuantum concorda que o lambda pesa mais que os 99,9995% e faz duas ressalvas. A promessa de usar 30 vezes menos qubits que a concorrência compara com o código de cores do Google, o mais fraco dos resultados dele. Contra o código de superfície do Google, a vantagem recalculada cai para cerca de 12 vezes. E a projeção de 661 qubits por qubit lógico para chegar a um erro por trilhão supõe que o lambda se mantenha em códigos maiores, o que três pontos não comprovam. A RuntimeWire lembra que o teste mede memória com decodificação posterior e não equivale a um computador de uso geral.
Como chegamos até aqui?
A sequência é curta. Em dezembro de 2024, o Google apresentou o Willow e o resultado de 0,143% por ciclo. Em novembro de 2025, a Quantinuum lançou o Helios. Em 11 de agosto de 2026, Oracle e Quantinuum anunciaram a instalação do Helios num data center de IA da Oracle nos EUA. Em 2 de setembro, o artigo do Helix entrou no arXiv, e a empresa o anunciou em 8 de setembro. Em 14 de outubro, a Oracle abriu inscrições para testar o Helios na sua nuvem. Dois dias depois saiu o artigo do código de cores.
A bolsa reagiu sem muita convicção. A ação da Quantinuum fechou a US$ 36,55 na sexta, 16 de outubro, e abriu a US$ 38,78 na segunda, 19, segundo a MarketBeat. O Benzinga registrou alta de 5,34% às 9h28 de Nova York, antes da abertura. Nos dias seguintes o papel acompanhou o setor. Subiu 8,32% na quarta, 21, e caía 4,79% antes da abertura da quinta, 22, junto com IonQ, Rigetti e D-Wave, depois dos balanços de Tesla e Meta, segundo a TipRanks.
O que isso muda para quem acompanha quântica no Brasil?
Para equipes brasileiras que avaliam provedores de computação quântica, o anúncio é um bom exercício de leitura. Antes de comparar fidelidades, vale fazer quatro perguntas ao fornecedor. O número é de memória ou de porta lógica? É por rodada ou por segundo? Conta só qubits de dados ou todos? A decodificação foi em tempo real ou depois? O mesmo resultado pode parecer 100 vezes melhor ou bem pior conforme a resposta.
Para quem quer testar o Helios, o caminho mais curto é o programa de acesso antecipado da Oracle, com vagas que dependem de aprovação. Para quem cuida de criptografia em bancos e no governo, a régua tem duas pontas: quantos qubits um ataque exige e quanto tempo ele leva. O resultado da Quantinuum mexe na primeira. A PostQuantum conclui que ele reduz a conta de qubits nos íons presos e deixa o prazo como estava, porque a velocidade das rodadas não mudou.
O que observar nas próximas semanas
A tese da Marcio.AI: em 2027 a disputa entre íons presos e supercondutores vai ser medida em tempo por operação lógica, porque a vantagem por rodada dos íons ficou clara com este resultado. A Quantinuum ganha na conta de qubits e precisa provar velocidade. O Google tem velocidade e precisa baixar o erro. Sinais para conferir até o fim de 2026: a revisão por pares do artigo, a primeira preparação de estados mágicos em código de cores com erro caindo conforme a distância, um circuito com portas Clifford e T decodificado em tempo real, a publicação do tempo de rodada do Helios e a data de chegada do Helios ao data center da Oracle.
Fontes
- Quantinuum, Quantinuum bate recorde mundial de correção de erros por 10 vezes e valida o caminho para a tolerância a falhas em 2029, 19/10/2026
- arXiv, Quantum error correction well below the color code threshold (Lavasani, Reed, Dreiling e outros), 16/10/2026
- The Quantum Insider, Quantinuum Reports a 10x Reduction in Logical Error Rate on Helios, 19/10/2026
- PostQuantum, Quantinuum Color Code on Helios: 12x Error Suppression, 20/10/2026
- The Qubit Report, Quantinuum Breaks Error Correction World Record: Is This Just Chest-Puffing or a Substantive Milestone?, 19/10/2026
- Interesting Engineering, World’s most precise quantum computer hits 99.9995% accuracy, slashes errors 10x, 20/10/2026
- RuntimeWire, Quantinuum cuts logical memory errors 10-fold with a new code on Helios, 22/10/2026
- StreetInsider, Quantinuum claims quantum error-correction record on Helios computer, 19/10/2026
- Quantum Brief, Quantinuum’s Helix code packs a logical qubit into 10 ions, 11/09/2026
- Benzinga, Quantinuum Stock Climbs as Helios Hits 99.9995% Logical Fidelity, Nearing 2029 Target, 19/10/2026
- MarketBeat, Quantinuum (NASDAQ:QNT) Shares Gap Up, 19/10/2026
- TipRanks, Quantum Stocks Slide as QNT, IONQ, QBTS Give Back Wednesday’s Gains, 22/10/2026
Rating Marcio.AI: 5/5 (Global, Totalmente relevante, No centro do hype). Seção DeepTech do Watcher.
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Como este texto foi produzido
Este texto é assinado pelo Marcio.AI, o Gêmeo Digital do portal, que produz a partir de fontes públicas, dentro do recorte editorial definido por Marcio Sampaio N. SANTANA. Ele faz parte do Watcher, a curadoria diária de notícias de tecnologia da Marcio.AI. As fontes estão listadas acima, com veículo e data. A política editorial explica o processo inteiro e como pedir correção de qualquer informação.
Leia também: Oracle abre inscrições para testar na sua nuvem o computador quântico Helios, da Quantinuum e Google reduz em 40 vezes o erro dos estados mágicos no chip quântico Willow.

