
A Anthropic já tem nota de crédito e está pagando mais caro para tomar dinheiro. Em 16 de outubro de 2026, o Financial Times revelou que a KBRA deu à empresa nota BB+ em junho, a mais alta do grau especulativo, um degrau abaixo do grau de investimento. Na mesma semana, o jornal informou que a Anthropic oferece à Blackstone cupom de 10% numa fatia de US$ 9 bilhões de um pacote de cerca de US$ 60 bilhões para alugar TPUs. Quatro meses antes, dívida do mesmo tipo saiu a 8,5%. Anthropic e Blackstone não comentaram.
Em resumo
- Nota: BB+ com perspectiva estável, dada pela KBRA em junho e só agora conhecida. É a primeira nota pública da empresa, segundo a AI Weekly.
- Junho: pacote de US$ 35 bilhões liderado pela Apollo, com a Blackstone. A fatia júnior, de cerca de US$ 4,4 bilhões, pagou cerca de 8,5%. A sênior, garantida pela Broadcom, 5,75%.
- Outubro: o projeto North Star soma cerca de US$ 60 bilhões para 1,5 GW de TPUs: US$ 42 bilhões sêniores com garantia da Broadcom e US$ 18 bilhões em dívida júnior.
- Blackstone: negocia metade da fatia júnior, US$ 9 bilhões, a cupom de 10%, mais desconto e taxas. Empresas com nota parecida pagam cerca de 7% no mercado público.
- Leitura: a receita subiu entre junho e outubro, e o prêmio de risco subiu junto. O credor cobra mais pela concentração em poucos desenvolvedores de IA.
O que a nota BB+ diz sobre a Anthropic?
A KBRA, agência americana de classificação de risco, deu à Anthropic nota de emissor BB+ com perspectiva estável em junho de 2026. A nota não tinha sido divulgada. Ela apareceu em documentos obtidos pelo Financial Times e foi reproduzida pela AI Weekly, pela Crypto Briefing, pela Finance Monthly e pelo coreano DigitalToday. BB+ é o degrau mais alto do grau especulativo. Mais um degrau e a empresa chegaria ao grau de investimento.
A agência trabalhou com pouca informação. Segundo o DigitalToday e a AI Weekly, a Anthropic entregou a receita do primeiro trimestre, o lucro operacional ajustado, a receita anualizada e projeções internas do segundo trimestre. Fluxo de caixa livre e Ebitda ficaram de fora. Os analistas estimaram esses números e usaram um sistema próprio de pontuação de risco no lugar de um modelo financeiro completo, segundo a Crypto Briefing. O resultado apontou risco moderado, com espaço para melhorar quando a empresa divulgar mais.
A Finance Monthly acrescenta que, no fim de junho, a Anthropic não tinha dívida no próprio balanço. O endividamento fica com parceiros e em veículos de propósito específico.
Como foi a dívida de junho?
A nota saiu junto com um pacote de US$ 35 bilhões liderado pela Apollo, com participação da Blackstone, para comprar e instalar chips pela plataforma de infraestrutura de IA da Broadcom. A Crypto Briefing cita a BlackRock entre os participantes relevantes. A BigGo Finance diz que o dinheiro bancou mais de 1 GW de capacidade em locais operados pela Fluidstack. A operação se chamava Big Sky, segundo o Seoul Economic Daily.
A estrutura tinha duas camadas. Cerca de US$ 4,4 bilhões formavam a fatia júnior, exposta direto ao risco da Anthropic. Essa parte recebeu a mesma nota BB+ e pagou cerca de 8,5% ao ano. O restante, a fatia sênior, contava com garantia da Broadcom e pagou 5,75%, segundo a AI Weekly e a Crypto Briefing.
O que a Anthropic oferece agora à Blackstone?
O novo pacote se chama North Star e soma cerca de US$ 60 bilhões. O dinheiro paga o aluguel de cerca de 1,5 GW de TPUs, os chips de IA desenhados pelo Google com a Broadcom. A dívida é paga pelas parcelas do arrendamento de cinco anos dos chips, segundo a BigGo Finance e o SMM, que citam o FT. Uma sociedade de propósito específico compra as TPUs e as aluga à Anthropic, segundo o JKN. O Seoul Economic Daily lembra que a Broadcom informou em abril um contrato para fornecer vários gigawatts de TPUs à Anthropic a partir de 2027.
A divisão aparece igual no Seoul Economic Daily, no JKN e na BigGo Finance. São cerca de US$ 42 bilhões em dívida sênior com garantia da Broadcom e US$ 18 bilhões em dívida júnior. Fundos da Blackstone negociam ficar com metade da parte júnior, US$ 9 bilhões, a cupom de 10%. O retorno total fica acima disso, com desconto na emissão e taxas que as fontes não quantificam. A outra metade deve ser vendida a outros investidores nos próximos meses, talvez a juro menor. A BigGo Finance informa que Bank of America, Citigroup e Morgan Stanley começaram no início de outubro a distribuir a parte sênior.
O valor da parte sênior coincide com a linha de até US$ 42 bilhões da Broadcom que o prospecto da Anthropic mostrou em 1º de outubro. As fontes não dizem se é o mesmo dinheiro.
Há uma divergência nos números de referência. A Crypto Briefing escreve que a parte sênior do novo pacote paga cerca de 7%. O SMM, o JKN e a BigGo Finance usam os mesmos 7% para outra medida: quanto pagam, no mercado público, empresas com nota parecida, pelo índice ICE BofA BB de high yield dos EUA. Este texto segue a leitura da maioria. O juro da parte sênior do North Star não foi divulgado.
Por que o juro subiu se a receita subiu?
Entre junho e outubro, a fatia júnior passou de 8,5% para 10% de cupom, mais taxas. A diferença sobre papéis de nota parecida passou de 300 pontos-base, conta da BigGo Finance. O Seoul Economic Daily, citando o FT, lê isso como sinal de que quem financia infraestrutura de IA quer prêmio de risco maior. Robert Leitao, sócio-gerente da Rothschild & Co, falou em aposta “bastante concentrada” em poucos desenvolvedores de IA ganhando o suficiente para pagar essas dívidas, segundo a BigGo Finance.
A Blackstone faz outra conta. Segundo o FT, reproduzido pelo Seoul Economic Daily e pelo JKN, a gestora quer travar retorno alto agora porque a nota da Anthropic pode subir ao grau de investimento depois do IPO, o que derrubaria o custo das próximas dívidas. A Blackstone também é acionista. Um fundo dela para investidores de alta renda reforçou a posição na Anthropic no segundo trimestre, segundo a Bloomberg, reproduzida pelo InfoMoney em julho. A gestora fica dos dois lados da mesa: dona de ações e credora com cupom de dois dígitos.
Como chegamos até aqui?
Em junho, Broadcom, Apollo e Blackstone criaram a AI XPV Platform para financiar computação da Anthropic e da OpenAI. Em 1º de outubro, o prospecto revelou a linha de até US$ 42 bilhões da Broadcom à Anthropic. Em 10 de outubro, a Marcio.AI mostrou que a Broadcom busca US$ 50 bilhões para os chips da OpenAI. Bancos que trabalham para as duas empresas tentam convencer as grandes agências a dar grau de investimento a elas depois que abrirem capital, segundo o DigitalToday. Por enquanto, a nota da KBRA é a única pública.
O que isso significa para empresas brasileiras?
O desenho do North Star é conhecido no Brasil. É o project finance usado em energia e rodovias: uma sociedade de propósito específico dona do ativo, dívida paga pelo fluxo de um contrato longo e camadas com risco e juro diferentes. A diferença está no ativo. Chip de IA perde valor rápido, e por isso a garantia da Broadcom sobre a parte sênior pesa tanto.
Para quem contrata Claude por aqui em contratos plurianuais, a lição é olhar o fornecedor como se olha um devedor. A capacidade que roda o modelo fica em veículos fora do balanço, com aluguel a pagar por cinco anos. Pergunte em que região o serviço roda, o que acontece com a capacidade se um desses veículos tiver problema e quais cláusulas de continuidade o contrato prevê. Parte da capacidade que serve esses tokens vai ser paga com dívida a 10% ou mais.
O que observar nas próximas semanas
A tese da Marcio.AI: até a estreia na bolsa, cada nova dívida júnior da Anthropic vai sair mais cara que a anterior, e o custo só cai se uma segunda agência der grau de investimento depois do IPO. Ganha quem trava juro alto agora, como a Blackstone. Ganha a Broadcom, que vende o chip e garante a dívida que paga por ele. Perde o acionista se a receita desacelerar antes de uma melhora da nota.
Sinais para conferir até dezembro: a nota da KBRA para a nova fatia júnior, que deve ser parecida com a de junho segundo a BigGo Finance, o juro da segunda metade de US$ 9 bilhões, uma nota de Moody’s, S&P ou Fitch e quanto dessas dívidas fora do balanço aparece no prospecto público.
Fontes
- AI Weekly, Anthropic Landed BB+ KBRA Rating in June Ahead of $35B Apollo Deal, 16/10/2026
- Crypto Briefing, Anthropic lands BB+ credit rating from KBRA, one notch below investment grade, 16/10/2026
- Finance Monthly, Anthropic recebe a nota mais alta do grau especulativo, 16/10/2026
- DigitalToday, Anthropic wins BB+ rating from KBRA, nears investment-grade threshold, 17/10/2026
- Crypto Briefing, Anthropic offers Blackstone double-digit yield in $60 billion chip financing push, 16/10/2026
- BigGo Finance, Anthropic’s $60 Billion Chip Financing Comes With a Double-Digit Price Tag, 17/10/2026
- SMM (Shanghai Metals Market), Anthropic oferece à Blackstone rendimento acima de 10% no financiamento de chips de US$ 60 bilhões, 18/10/2026
- Seoul Economic Daily, Anthropic Subordinated Bond Yield Tops 10% in Four Months, 19/10/2026
- JKN, Anthropic Offers Over 10% Yield on Subordinated Debt in Blackstone Investment Talks, 19/10/2026
- InfoMoney (Bloomberg), Anthropic impulsiona maior ganho do fundo da Blackstone para investidores alta renda, 03/07/2026
Rating Marcio.AI: 5/5 (Global, Totalmente relevante, No centro do hype). Seção TechBiz do Watcher.
#MarcioAI #Anthropic #Blackstone #CreditoPrivado #TPU #InfraestruturaDeIA
Como este texto foi produzido
Este texto é assinado pelo Marcio.AI, o Gêmeo Digital do portal, que produz a partir de fontes públicas, dentro do recorte editorial definido por Marcio Sampaio N. SANTANA. Ele faz parte do Watcher, a curadoria diária de notícias de tecnologia da Marcio.AI. As fontes estão listadas acima, com veículo e data. A política editorial explica o processo inteiro e como pedir correção de qualquer informação.
Leia também: Broadcom vai emprestar até US$ 42 bi à Anthropic e Broadcom busca US$ 50 bi para chips da OpenAI e Oracle negocia com Apollo.

