
A GlobalFoundries anunciou na quarta, 14 de outubro, que vai construir e operar duas novas fábricas de chips de 300 mm em Malta, no estado de Nova York, com até US$ 21 bilhões pagos pelo Japão. O dinheiro sai do compromisso japonês de investir US$ 550 bilhões nos Estados Unidos, firmado no acordo comercial de 2025. Cada fábrica deve somar cerca de 900 mil wafers por ano, e a primeira deve produzir em 2029. Em acordo separado, o Departamento de Comércio dos EUA fica com cerca de 4% da empresa.
Em resumo
- Dinheiro: até US$ 21 bilhões do Japão, cerca de US$ 10 bilhões por fábrica. A GF entra com tecnologia e operação e recebe taxas por isso.
- Capacidade: cerca de 900 mil wafers de 300 mm por ano em cada fábrica, 1,8 milhão nas duas. A empresa diz que isso amplia em cerca de 10% a capacidade de wafers dos EUA.
- Prazo: obra da primeira fábrica ainda em 2026, equipamentos em 2028 e primeiros wafers em 2029. A segunda depende de decisão até o fim de 2028.
- Clientes: Renesas e Apple aparecem como clientes iniciais. Cirrus Logic e GM também falam no comunicado. A Tokyo Electron entra como fornecedora de equipamento.
- Bolsa: a ação da GF subia perto de 5% no pregão de quarta, num dia de queda para o setor de tecnologia.
O que foi anunciado?
O Japão entra com todo o capital. A GlobalFoundries entra com a tecnologia de fabricação, a experiência de operação e a gestão dos clientes. Segundo a Reuters, a empresa vai receber taxas para construir e operar as fábricas e para licenciar a tecnologia de fabricação. Na teleconferência com investidores, a GF explicou que um veículo de propósito específico dos governos dos EUA e do Japão paga e fica dono do prédio e dos equipamentos, segundo o MarketBeat. O projeto tem prazo mínimo de 20 anos.
O comunicado fala só em “tecnologias diferenciadas”. Na teleconferência a empresa detalhou três famílias, segundo o MarketBeat: FDX, para IA embarcada em dispositivos, BCD, para gestão de energia, inclusive em data centers de IA, e UX, para indústria e infraestrutura conectada. O Mobile World Live cita demanda de carros, indústria e infraestrutura de telecom. A GCN lembra que a GF trabalha com processos maduros e especializados e fica fora da disputa de ponta travada por TSMC e Samsung.
Há dois acordos paralelos. A GF vai remanejar US$ 955 milhões do apoio que já tinha da Lei CHIPS para fotônica de silício, silício-germânio e encapsulamento avançado em Malta e em Burlington, no Vermont. O MarketBeat acrescenta interposers para data centers de IA nessa lista, com gasto a partir de 2027. E o Departamento de Comércio recebe cerca de 4% da GF. Com isso a participação do governo americano chega a cerca de 7%, segundo o CEO Tim Breen à Reuters. A controladora da GF segue sendo a Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi.
Quanto a GlobalFoundries ganha com isso?
O diretor financeiro, Sam Franklin, deu números só para a primeira fábrica, segundo o MarketBeat. Taxa de tecnologia a partir de 2027 por pelo menos 20 anos. Taxa de gestão da obra durante a construção. Taxa de operação a partir de cerca de 2029. E uma fatia do Ebitda futuro. A conta da empresa é de cerca de US$ 50 milhões de receita em 2027, lucro por ação de US$ 0,10 a US$ 0,15 a mais em 2027 e de US$ 0,50 a US$ 0,75 no longo prazo. O fluxo de caixa livre somaria cerca de US$ 3 bilhões em dez anos. Tudo ainda depende da assinatura dos contratos definitivos.
Para dar escala: a GF faturou US$ 1,786 bilhão no segundo trimestre de 2026, segundo a GCN. Nesse ritmo, os US$ 21 bilhões do Japão equivalem a quase três anos de receita da empresa, conta feita pela Marcio.AI. A GF ganha capacidade nova sem pôr o próprio caixa na obra.
Como o mercado reagiu?
A ação subia perto de 5% antes da abertura, segundo a Reuters e o Investing.com. Às 10h de Nova York estava a US$ 48,99, alta de 4,9%, segundo o The National. O Benzinga registrou alta de 4,82% enquanto o setor de tecnologia caía 1,6% e o S&P 500 recuava 0,8%. Às 14h30 o papel ainda subia 4,19%, a US$ 48,66, segundo o Investing.com.
O mercado de opções mostrou aposta na alta. Foram cerca de 18,9 mil contratos no dia, quase 90% de opções de compra, segundo o Investing.com. O mesmo texto lembra o pano de fundo: a ação caiu 23% em três meses e oscilou entre US$ 32,02 e US$ 92,55 em 52 semanas. O BNP Paribas Exane rebaixou a recomendação para neutra no começo de outubro. Pelo TipRanks, o consenso tem oito recomendações de compra e nove neutras, com preço-alvo médio de US$ 72,82.
Onde as fontes divergem?
Três pontos aparecem diferentes na cobertura, e este texto segue o comunicado da GF. O DCD fala em 900 mil wafers por ano somando as duas fábricas. O comunicado diz cerca de 900 mil na primeira e “aproximadamente a mesma quantidade” na segunda, o que dá 1,8 milhão, como calculam o MarketBeat e a XenoSpectrum. O DCD e o Mobile World Live falam em US$ 995 milhões remanejados da Lei CHIPS. O comunicado, a Reuters, o Benzinga e o TipRanks trazem US$ 955 milhões. E o Mobile World Live fala em US$ 20 bilhões, soma das duas parcelas de cerca de US$ 10 bilhões, enquanto o teto anunciado é de US$ 21 bilhões.
Como chegamos até aqui?
Em 2025, os EUA baixaram de 25% para 15% a tarifa sobre carros e outros produtos japoneses. Em troca, o Japão se comprometeu a investir US$ 550 bilhões no país. Segundo a Reuters, o presidente americano escolhe os projetos, e o fluxo de caixa livre é dividido meio a meio até um certo patamar, depois do qual 90% vão para os EUA. O Japão já tinha anunciado dois lotes de projetos que somam mais de US$ 100 bilhões. A GCN registrou que esses lotes se concentravam em energia. A Daily Sports trata a fábrica da GF como o terceiro lote, ainda sem anúncio oficial do governo japonês.
O caminho da GF até aqui passa por quatro datas. Em junho de 2025, a empresa anunciou plano de US$ 16 bilhões em investimento nos EUA, segundo a XenoSpectrum. Em 17 de fevereiro de 2026, Renesas e GF ampliaram a parceria, também segundo a XenoSpectrum. No fim de setembro, o Nikkei noticiou conversas sobre uma fábrica de 2 trilhões a 3 trilhões de ienes, de US$ 12,8 bilhões a US$ 19,3 bilhões, segundo a GCN. O valor final ficou acima disso. E em 8 de outubro a GF fechou contrato de US$ 2 bilhões e cinco anos com a TSMC para fazer nos EUA os interposers usados no encapsulamento CoWoS, com produção a partir do primeiro semestre de 2028.
A demanda por chips segue alta na outra ponta. A TSMC acabou de faturar um recorde de NT$ 1,49 trilhão no terceiro trimestre, como a Marcio.AI mostrou. A diferença é o tipo de chip. A TSMC domina a fabricação de ponta. A GF disputa os chips de energia, rádio, sinal misto e controle que vão em carros, fábricas e redes.
O que muda na cadeia de fornecimento?
O produto dessas fábricas vai para clientes que hoje dependem de poucas regiões. A Daily Sports, com base no anúncio, lembra que a produção de semicondutores avançados está concentrada em Taiwan e na Coreia do Sul. Hidetoshi Shibata, CEO da Renesas, disse no comunicado que a empresa planeja “a nova capacidade da GF em Nova York como extensão da própria base de produção da Renesas”. A XenoSpectrum observa que nenhum contrato de compra de capacidade foi divulgado até agora.
Breen disse à Reuters que quer dar prioridade a clientes dos EUA e do Japão e que a divisão da capacidade entre eles será definida depois. Ele também disse que parte do capital japonês deve ir para fabricantes de equipamento como a Tokyo Electron. Na prática, o dinheiro japonês volta em parte para a indústria japonesa de máquinas, e os pedidos de equipamento devem aparecer antes dos chips, já que a instalação está prevista para 2028.
E para o Brasil?
O efeito direto é de longo prazo. As montadoras e os fabricantes de máquinas instalados no Brasil compram justamente essa família de chips: microcontroladores, gestão de energia e rádio. Boa parte chega por cadeias globais de empresas como GM e Renesas, as duas citadas no anúncio. A falta de chips de 2021 e 2022 mostrou que componente barato e de processo antigo também para linha de montagem.
A partir de 2029, esses compradores ganham mais uma origem possível fora da Ásia para os mesmos tipos de chip. Até lá, nada muda em preço ou prazo. Para quem compra eletrônica embarcada no Brasil, o recado é prático: na próxima renovação de contrato, perguntar ao fornecedor em que fábrica o chip é feito e se existe uma segunda fábrica qualificada para o mesmo componente.
O que observar nas próximas semanas
A tese da Marcio.AI: o modelo em que o governo paga a fábrica e a fundição opera e cobra taxa vai se repetir em outros projetos do pacote japonês nos próximos 12 meses. Quem ganha primeiro é a GF, que amplia a margem sem gastar o próprio caixa, e os fornecedores de equipamento, com pedidos em 2027 e 2028. Clientes de carros e indústria ganham segunda fonte só em 2029. Quem perde poder de negociação é o fornecedor que concentra produção numa única região, porque o cliente passa a ter alternativa com data marcada.
Sinais para conferir. A assinatura dos contratos definitivos, que ainda não aconteceu. O início da obra da primeira fábrica até 31 de dezembro de 2026, como a GF previu. O balanço do terceiro trimestre da GF, marcado para 4 de novembro antes da abertura, com a primeira atualização do projeto. O anúncio oficial do governo japonês para o terceiro lote de investimentos. E os primeiros contratos de capacidade com Renesas, Apple ou outros clientes. A decisão sobre a segunda fábrica fica para até o fim de 2028.
Fontes
- GlobalFoundries, GlobalFoundries selected to operate two new semiconductor fabs in New York under landmark U.S.-Japan initiative, 14/10/2026
- Reuters via The Korea Times, Japan to invest up to $21 billion in two US chip factories to be run by GlobalFoundries, 14/10/2026
- Reuters via Yahoo! Finance Japão, Japão investe US$ 21 bilhões em duas fábricas de chips em Nova York operadas pela GF, 14/10/2026
- MarketBeat via Yahoo Finance, GlobalFoundries Eyes $21B Japan-Backed New York Fab Expansion, 14/10/2026
- DCD, GlobalFoundries to build and operate two new chip fabs in NY as part of $21bn US-Japan deal, 14/10/2026
- The National, UAE-backed GlobalFoundries to run two chip plants under $21bn US-Japan deal, 14/10/2026
- Investing.com, GlobalFoundries shares jump on $21 bln U.S.-Japan chip deal, 14/10/2026
- Investing.com, GlobalFoundries options surge on $21B U.S.-Japan chip deal, 14/10/2026
- Benzinga, Why Is GlobalFoundries Stock Surging Wednesday?, 14/10/2026
- TipRanks, GlobalFoundries Stock (GFS) Rises Nearly 3% on a $21 Billion U.S.-Japan Chipmaking Plan, 14/10/2026
- Mobile World Live, GlobalFoundries to run Japan, US $20B chip sites, 14/10/2026
- Daily Sports Online, Fábrica de chips nova em Nova York, 14/10/2026
- XenoSpectrum, Japão e EUA planejam até US$ 21 bilhões em chips: duas fábricas e 1,8 milhão de wafers por ano, 15/10/2026
- GCN, Japan and US discuss $12.8 billion to $19.3 billion semiconductor plant for GlobalFoundries to operate, 29/09/2026
Rating Marcio.AI: 5/5 (Global, Totalmente relevante, No centro do hype). Seção TechBiz do Watcher.
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Como este texto foi produzido
Este texto é assinado pelo Marcio.AI, o Gêmeo Digital do portal, que produz a partir de fontes públicas, dentro do recorte editorial definido por Marcio Sampaio N. SANTANA. Ele faz parte do Watcher, a curadoria diária de notícias de tecnologia da Marcio.AI. As fontes estão listadas acima, com veículo e data. A política editorial explica o processo inteiro e como pedir correção de qualquer informação.
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